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Precisaremos de (re)inventar os pais?

Há uns bons anos, mais concretamente em 2000 e ainda muito longe de pensar em ser mãe, uma das minhas compras na Feira do Livro foi o livro "Inventem-se novos pais" de Daniel Sampaio. Na altura, já esse título ia na 12ªa edição com 67000 exemplares vendidos e, com um título inquietante a meu ver, continua hoje a ser vendido e a fazer sentido. Ou será que não? 


Neste livro (como em muitos outros), Daniel Sampaio foca a sua escrita nos adolescentes e, em concreto, na necessidade de existir um diálogo permanente e claro dos pais com os seus filhos, sendo que este diálogo não pode ficar apenas restrito ao verbal, sendo também importante que os pais estejam atentos aos pequenos sinais do quotidiano, os não-verbais, e que tantas vezes revelam muito mais sobre o adolescentes do que as suas palavras. Escassas, ditas entredentes e fechadas num mundo em que o adolescente não deixa entrar qualquer adulto. 

Por estes dia, numa arrumação dos livros que abundam cá por casa, (re)descobri este livro de Daniel Sampaio e dei comigo a folheá-lo novamente. E não pude deixar de me deter na seguinte passagem:
Uma família é algo que pode mudar constantemente. E a adolescência dos filhos pode transformar a família, para melhor ou para pior. (...) Há outras famílias bem diferentes. Onde as crianças foram educadas a não esconder dos seus pais o seu dia-a-dia, onde os adolescentes foram respeitados como pessoas, desde aquele dia em que ficaram sozinhos em casa ou foram pela primeira vez sair à noite. Nessas famílias sabe-se que há muitas coisas que não se perguntam, porque pertencem ao mundo interior de cada um. Há questões que se podem debater livremente, porque não haverá vingança nem falsas vitórias. 
Eu iria um pouco mais longe e diria que ter um filho pode mudar uma família para melhor ou para pior. Ser pai numa sociedade que vive a correr, com um cordão umbilical sempre ligado ao mais recente gadget tecnológico e permanentemente online, deixa pouco espaço para o diálogo e para os momentos de qualidade em família. O trabalho é cada vez mais exigente, esgotante, suprimindo as nossas energias durante longos períodos fora de casa e deixa-nos com as pilhas quase descarregadas para tudo aquilo que ainda é preciso fazer ao final do dia, depois de enfrentar trânsito para casa e de chegar a casa em cima da hora de tratar do jantar e das rotinas das crianças. A nossa sociedade tem uma enorme ânsia de velocidade, de ser melhor que quem está ao nosso lado levando, muitas e tantas vezes, essa competição para dentro de casa e para dentro do casal, relegando as crianças para segundo plano. Precisaremos então de (re)inventar os pais e a parentalidade?

Se calhar não... Não há que inventar a roda nisto de ser pai em pleno século XXI. Se calhar, conseguir que o diálogo exista, sem interrupções indesejadas, é muito mais fácil do que aquilo que podemos imaginar. A solução infalível não está nos livros. É certo que eles nos podem ajudar a olhar a realidade de uma outra perspectiva e despertar-nos para determinados assuntos (e eu sei bem o que isto quer dizer... Aconteceu-me isto com o livro "Educar com o coração" da Cristina Tébar - blog Montessori en Casa -, editado pela Verso de Kapa (mais informação sobre o livro aqui), e de que falei neste post). Mas, garantidamente, não irão ser eles que nos irão ensinar a ser pais, a reinventarmo-nos como pais e como pessoas nem muito menos a educar a não nos ser escondido nada pelos nossos filhos, como sabiamente escreveu Daniel Sampaio. Isso não se consegue com imposições, com checklists ou com pressões desnecessárias. Isso apenas irá criar um fosso maior entre a criança e o adulto. Há sim que criar com e para o afecto, com colo e mimo presente e respeitando sempre a individualidade da criança. Respeitar a criança não é criar sem regras, muito pelo contrário. É antes, a meu ver, educá-la mostrando que também tem a sua voz e que os adultos também a querem ouvir. 

É preciso uma #maternidadeapassodecaracol e uma aldeia para que a palavra não se perca no vento e para que não nos tornemos estranhos dentro de nossas casas e das nossas famílias. Não podemos também criar fossos entre a família e a escola, o local onde tantas as horas os nossos filhos passam. Há que cultivar o diálogo e a porta aberta a estes outros elementos que vão mostrando o mundo aos nossos filhos quando estamos a trabalhar. Há que ser mais participativo e integrar mais a escola na realidade familiar. Isso nem sempre é fácil mas há que acreditar que é possível. Pelo bem de todos. E por crianças que se sentiam mais ouvidas!


Ainda sobre a vida online, recomendo a leitura destes dois livros:
- De Daniel Sampaio e Ivone Patrão, "Dependências online". Este livro foca-se nos efeitos das dependências online sobre as crianças e os jovens adultos nos dias de hoje, fornecendo orientações para a gestão dos comportamentos online e que deve ser lido com um olhar atento por todos os elementos da família para que haja uma sintonia nos comportamentos e nas regras a seguir. 


- De Janell Burley Hofmann, "iRegras. Como educar o seu filho na era digital". Janell Hofmann partilha as regras que definiu juntamente com o seu marido para o filho de 13 anos quanto à vida online, oferecendo "às famílias as ferramentas necessárias para encontrarem o equilíbrio entre o uso da tecnologia e a interação humana, ajudando os pais a criarem as suas próprias iRegras e transmitirem aos filhos um sentido de autoestima, integridade e responsabilidade" (site WOOK).


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