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Os meninos podem ser cientistas. Já as meninas...

Talvez um dos assuntos que mais de fale esta semana relacionado com o regresso às aulas é o dos cadernos de actividades para meninas e para meninos publicados pela Porto Editora.

Basicamente, tratam-se de dois cadernos para a mesma faixa etária, mas distintos por género, em que as actividades do cadernos para meninos possuem uma complexidade bem superior ao do caderno para meninas. Para além de, nestes mesmos cadernos de actividades, os meninos poderem ser cientistas mas as meninas se limitarem ajudar a mãe na cozinha a fazer uma sandes para o lanche...

Bem, numa sociedade e numa época em que, cada vez mais, há tantas e tantas mulheres com provas mais do que dadas nos mais diversos campos, custa-me que uma editora a quem reconhecia alguma qualidade aprove, edite e publique cadernos de actividades tão carregados de preconceito relacionado com o género. Que seja capaz de promover tanta distinção entre meninos e meninas ainda em formação e que irão acreditar que é assim a realidade.

Tal como nos desenhos animados... Porquê agora tanta distinção nos desenhos animados? Lembro-me de, em criança, rapazes e raparigas verem exactamente os mesmos desenhos animados... D'Artacão, Tom Sawyer, as viagens de Willie Fog e tantos por aí fora... Parece-me que era uma altura em que não existia tanto esta perspectiva de distinguir os meninos das meninas.

Sobre este assunto, encontrei um interessante artigo de opinião publicado no Expresso por Paula Cosme Pinto em Março deste ano. Trata-se de um artigo que começa logo por colocar o dedo na ferida com o seu título: Porque não devem os rapazes brincar com bonecas? Efectivamente, trata-se de algo convencionado em sociedade de que meninos são para brincar com carros e meninas com bonecas. É assim que é aceite e tudo o que fuja a esta "regra" não é bem encarado pela maioria das pessoas. No mesmo artigo também, é falado o trabalho da fotógrafa Kirsten McGoye e o seu movimento #aboycantoo. Neste trabalho, a fotógrafa faz fotografias dos seus três filhos desafiando aquilo que é aceite em sociedade.

Neste século já não deveria haver este tipo de distinção promovido por uma editora que será, talvez, a que possui a maior expressão na área de livros escolares. Isto apenas me faz lembrar os livros em que se explicava como deveria ser uma mulher perfeita publicado algures nos anos 40 ou 50 do século passado. Será que é isto que queremos para as nossas crianças? Mostrar-lhe que os meninos podem vir a ser cientistas mas que as meninas não conseguem lá chegar...?

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